Quadrante 16
Publicação animada
OUA número DRA NTE UNIVERSIDADE C U L T U R A 16 associação académica da faculdade de direito de lisboa
Entrevista com o Pedro Novíssimo – Revista AAFDL – Tiago Gouveia e João Avelar Dias
Lisboa | 2026
Entrevista com o Pedro Novíssimo – Revista AAFDL
Entrevista com o Pedro Novíssimo – Revista AAFDL – Tiago Gouveia e João Avelar Dias
Como é que te chamas? Que idade tens? Há quantos anos trabalhas na FDUL? “Pedro Gonçalves , 45 anos, trabalho na FDUL há 13 anos.” Onde é que nasceste e cresceste? E como vieste aqui parar? “Eu sou beirão. Nasci na Beira Interior. Vim para Lisboa com 13 anos, era, basicamente, um puto. Vim trabalhar para hotelaria. Já trabalhava na altura em que vim para Lisboa, na construção civil. Comecei a trabalhar com nove anos e meio. A minha vida não tem sido propriamente muito fácil. Vim com 13 anos para Lisboa sozinho e estou a trabalhar, desde então, até aos meus 45 anos, na indústria hoteleira. Tenho tido um percurso de vida bem preenchido, diga-se de passagem…”
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Qual era o teu ídolo de infância? “Eu cresci sempre no meio rural… Como era um meio muito pequeno, na minha aldeia só houve televisão quando eu tinha seis anos de idade, e só para uma casa, em que a gente se juntava, os miúdos todos da aldeia, quando acabávamos a escola às três da tarde, e íamos ver os desenhos animados. Eu já era nascido, praticamente com uma semana de vida, quando a eletricidade foi para a minha aldeia. Entretanto, começámos a ter mais uma ideia do que eram as coisas. A nível futebolístico, na altura, adorava o Van Basten, um holandês, um avançado fabuloso. Girava sempre em torno do futebol. Quando vim para Lisboa, tornei-me literalmente um apaixonado por futebol e fazia «n» coleções de cromos, de revistas... Tudo o que era europeus e mundiais de futebol eu tinha pilhas de revistas que eu adorava daquela altura.” E qual é o teu jogador favorito de futebol na atualidade? “Isso é tudo muito relativo… Toda a gente gosta do Cristiano Ronaldo, português, o gajo é fora de série! Mas há aí grandes jogadores! Ainda hoje estávamos aqui a comentar os jogos da Liga dos Campeões e eu sou apaixonado por um jogador, que já se pode dizer que é “cota” para o futebol de hoje em dia, que é o Modrić. Acho que o homem é fabuloso!”
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És do Sporting não és? Preferias que o Sporting ganhasse a Liga dos Campeões ou que Portugal ganhasse o Mundial? “Claro que sou do Sporting! É óbvio que preferia que Portugal ganhasse o Mundial. É óbvio que gostava que o Sporting ganhasse a Liga dos Campeões, mas seria mais prestigiante para o futebol português que ganhássemos o Mundial.” E qual foi o jogo de futebol mais marcante que já viste na tua vida? “Sem dúvida alguma, a final do Europeu de 2016. Se bem que a final do Europeu de 2004, que organizámos cá, foi o jogo de futebol que mais vibrei em toda a minha vida, foi uma coisa fora do normal, apesar de não termos ganho…”
És casado? Há quanto tempo? “Casado! Há 22 anos!”
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Tens filhos? “Tenho duas filhas! Uma delas, inclusive é da tua idade (18 anos). A outra tem 14 anos.”
Gostava que ela viesse estudar para a FDUL? “Nós apoiamos os filhos em qualquer circunstância que eles queiram como é óbvio. Tentamos encaminhá los sempre para o melhor possível. Quanto à minha filha mais velha, toda a gente dizia que tem um dom de argumentação fora de série, e tem, ponto assente e que iria vir para cá… Não está a tirar Direito, está a tirar prótese dentária. Ainda poderá vir para cá tirar um segundo curso. A mais nova, se tiver de ser será… Poderei já cá não estar (na FDUL), porque eu estou super cansado. São 13 anos aqui, vocês veem o ritmo que isto é… Eu saio daqui completamente exausto à noite!” Como é a tua rotina diária? “A minha rotina não é fácil, não é fácil! Eu acordo todos os dias às 4h50 da manhã, apanho os transportes para vir para aqui, e quando são 6h10, mais ou menos, eu estou aqui no bar para fazer a preparação de tudo aquilo que vocês veem ali na montra, desde frutas,
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croissants, bolos, tudo o que vocês possam imaginar que está na montra sou eu que coloco ali. Depois, entretanto, chega o Miguel, chega o Nuno, e por aí fora. Depois, é o desenrolar do dia, que vocês veem. Saio do trabalho por volta das 17h, já tive tempos que saía mais tarde. Ainda vou cozinhar, todos os dias, por incrível que pareça, e só vou para a cama por volta das 23h.” Como é que aguentas com tão poucas horas de sono? “Muito honestamente não é fácil. Posso dizer que, antes da pandemia, as minhas filhas faziam danças de salão das 20h às 22h30, ainda longe de casa, e eu, para não estar a dormir sentado no carro, o que é que me deu na cabeça? Vou inscrever-me no ginásio! Naquelas duas horas, para não estar parado ou a dormir no carro, inscrevi-me no ginásio e das 20h30 até quase às 23h estava no ginásio, e, ainda ia para casa, jantava, e só por volta da meia noite e qualquer coisa é que eu ia para a cama. Andei três anos nesta vida. Eu sou super ativo, não gosto de estar parado. Eu tenho um cão, ele tem uma sorte descomunal! Eu quando me sento 5 minutos no sofá, começo logo aos saltos, e então: «Buba, vamos para a rua, vamos passear!».”
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Mas agora já acalmaste? “Sim, desse ponto de vista acalmou. Mas muito honestamente, eu gostava de voltar. Agora, como tenho o cão, dá-me um prazer gigantesco quando acabo de jantar… «Buba, vamos para a rua!», e vou fazer caminhadas. Faço caminhadas de uma hora e tal ali na zona onde eu moro. Houve uma altura em que fazia corridas.” Tens algum hobbie que as pessoas não estejam à espera? “Sou caçador há 35 anos. Para a vossa geração é uma coisa que não é muito comum. Eu não conheço ninguém da vossa idade que o exerça. Acho que conheço uma pessoa vá, no Baixo Alentejo… Vou para o Alentejo todos os domingos. Houve uma altura da minha vida que eu praticava futebol aqui na Cidade Universitária. Quando chegava a altura da caça, deixava o futebol e ia para a caça.”
E o que é que caças mais? “Geralmente, é a dita caça menor: lebres, coelhos, perdizes e tordos.”
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E o que é que fazes aos animais que caças? “Não como, dou, porque lá em casa ninguém gosta de caça, à exceção de mim. Dou aos meus amigos todos. Assim que chega ao fim do dia digo: «Meninos, podem levar tudo para casa porque eu não quero nada». É só pelo prazer da caça em si e pelo convívio. A caça é considerado um desporto, e, como é tudo malta da minha idade, à exceção de um senhor, é acima de tudo pelo convívio. Somos todos descendentes de uma aldeia e, portanto, é sobretudo pelo convívio e para limpar a cabeça. Eu vou para lá e esqueço-me de tudo, até às vezes da mulher e das filhas… é verdade! Fico abstraído de tudo.” Qual é a tua comida preferida do Novíssimo? “Eu sou um bocado suspeito, como sempre comi um pouco de tudo, como sempre fui habituado a comer um pouco de tudo, não tenho grandes preferências para a comida da juventude que frequenta o bar. Adoro feijoada, adoro cozido à portuguesa, e aqui no bar quase que é impensável vender isso, neste meio universitário. Se eu der «hambúrgueres aux champignon » todos os dias, vendo carradas disso, mas como tudo o que se vende no bar, não sou esquisito, só há uma coisa que não gosto, é de dobrada (estômago da vaca).”
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«O Novíssimo é o bar dos betinhos» concordas com esta afirmação? “Não concordo nem discordo, o Novíssimo sempre se pautou pela frequência de certas e determinadas pessoas, ou seja, por alunos, filhos de jornalistas, filhos de políticos, de uma classe mais alta, e isso já não é de agora, é desde o início, sempre conheci o Novíssimo dessa forma.” E como é que explicas isso? “Não sei… Porque é um bar mais recente, às vezes a forma como são tratados. Como disse no início da entrevista, eu já estou aqui há 13 anos e já conheci aqui gente de todos os quadrantes e às vezes até costumo dizer que não quero ser mais conhecido, porque já sou mais do que o diabo! Já fiz aqui grandes amigos, da política, do jornalismo e se mandar uma mensagem pelas redes sociais, todos respondem-me. Desde a pandemia para cá, comecei-me a desinteressar um pouco mais sobre essa questão, mas antes, posso dizer que sabia os nomes de 95% das pessoas que frequentavam o bar, até o meu nome era mencionado nas aulas «Como é que o Pedro do Novíssimo sabe o nome deste e daquele…».”
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Por falar em pessoas que frequentam o bar, qual é que foi a pessoa mais famosa que já passou aqui no Novíssimo? “Eu próprio, eu próprio! Agora fora de brincadeiras, o bar já foi frequentado por jogadores de futebol, políticos, o Marcelo Rebelo de Sousa porque era cá docente, o António Costa, é todos os dias frequentado por várias personalidades conhecidas, deputados que são inclusive professores da FDL, epá «n» pessoas…” O que mais gostas na FDUL e o que menos gostas? “Vamos começar pela parte negativa, muito honestamente, como estou aqui há muitos anos, há coisas que, realmente, a gente vê e que não concorda, mas o que me diz respeito é tudo o que tem a ver com o bar. O que mais gosto é aquilo que tenho absorvido mais ao longo da vida, eu dar-me com pessoal da vossa idade. Apesar de eu ter 45 anos, tenho idade para ser pai de grande parte destes alunos, rejuvenesce me dar-me com pessoas como vocês. Eu tenho um espírito e uma mente super aberta, sou brincalhão, extrovertido e, agora não tanto, mas antigamente eu dizia piadas do arco da velha, piadas básicas e divertia-me com pessoas assim do nada, mas o que mais me cativa é dar-me com a juventude, aprendo
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imenso com vocês. Dá me um prazer gigantesco dar me com pessoas da vossa idade.” Qual é o teu local favorito? “Como já disse na entrevista, eu sou Beirão, uma aldeia perdida nos confins do interior do país, mas apesar de ser Beirão, eu amo o Alentejo. Isto derivado da caça, porque há que saber apreciar. Apesar de se dizer «É só planícies, é tudo desertificado», é um facto, mas tem outras belezas e isso é que me fascina, é o Alentejo e a sua gastronomia também!” E qual é que é o teu prato preferido da gastronomia alentejana? “Adoro Migas de Espargos, Sopa de Cação, Cozido de Grão à Alentejana, eu acho que o país num todo é muito rico na sua gastronomia, sempre bem feita, é toda ela muito boa, mas para mim a alentejana é das melhores.”
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Como é que gostavas de ser lembrado pelos alunos da FDUL e gostarias de lhes deixar alguma mensagem? “O meu tempo aqui também já é muito escasso, muito honestamente, porque eu já estou, como vos disse, muito cansado, e começo a pensar daqui para a frente, se calhar já em outros voos. Gostaria de ser lembrado como um gajo muito porreiro, que manda aquelas piadas estúpidas e que, acima de tudo, seja boa pessoa, que é isso que eu quero que seja recordado. Várias pessoas já me disseram que fui uma peça chave para a realização do curso porque chegavam a dias às vezes em baixo, e eu «levantavas lhe o astral», é nesta cena, principalmente, que quero que eles me lembrem.”
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